quinta-feira, 3 de abril de 2008

Do Salvador à Canavieiras

Salvador é uma cidade linda.
Não foi à tôa que os primeiros "malhandrus" que nas terras de cá aportaram, fizeram base por aqui.
Muita coisa bunita. Agora eu sei porque Pernambucanos são arretados com "salvadorenses", eles tem o mar que Recife queria ter.
Aqui conheci a Lambreta, que tanto ouvi falar pelo Sergipe, uma espécie de marisco, simples, bom e caro(vem muito pouco, ou comi no lugar errado).
Fiquei no Stela Maris, um bairro ao norte, já limite com Lauro de Freitas. Na casa de Rafael, o qual fico grato pela acolhida e atenção, grato também a Lola, Pedro, Lucas, Rebeca e Wanda pela paciência com um intruso no escritório. Valeu.
Sai de lá na segunda de manhã, recuperado e curioso.
Pedalei 30km até o ferryboat(ou balsa, lá eles tem dessas frecuras também).
Moraria fácil. Ladeiras perto do mar é mirante a cada esquina.
O que me incomodou é a tendência das novas moradias serem em condôminios super protegidos.
A cidade tem uma centena desses. Muros altos e calçadas pequenas.
O ferryboat foi uma grande experiência marítma, foi o maior barco que já andei. Tem 4 andares, duas lanchonetes, televisões, cadeiras de ônibus e muita gente. uns trinta minutos andando como bêbado.
Desci em Bom Despacho(gosto de nomes objetivos), lá tem um pequena rodoviária que conecta as pequenas cidades no entorno, quero ir para Ilhéus, porém, ônibus pra lá só no outro dia. Resolvo, com a ajuda de Suelen, a despachante, ir para Itabuna.
Fiquei na rodoviária de 14:30 à 19:40, deu pra desenhar um bucado e comer uma macaxeira com carne de sol.
Chegamos em Itabuna às 01:30 da madruga, rodoviária tranquila, com trecho fechado para a parte externa, onde eu e mais uma duzia de pessoas passamos a madrugada.
Um crente, um gringo, um surfista, um senhor motorista de trator, a atendente da lanchonete e mais alguns dorminhocos. Um café, tv, conversas. Nesta noite vi no jô soares uma entrevista com uma florzinha, malu magalhães, desenrolada a menina.
Sol de chegada.
Eu de rumo.
Saio de Itabuna com o sol ainda trás dos montes, e a cidade já pondo a cara pra fora.
Friozinho, nuvens, fumaça do café no carrinho da esquina, tudo me lembrava são paulo.
Feliz encontro com o rio cachoeiras que corta a cidade e segue beirar estrada até Ilhéus. Rio caudaloso e com pedras. Bunito.
Conheci uma cerejeira florida nesta manhã. Sonho.
Quando começo a pegar o fim da cidade o dono do dia aparece. E vai comigo até Ilhéus a me olhar no olho.
Sol como norte, rio como corrimão. ladeira abaixo.
duas ou três subidinhas maneiras.
O caminho me lembra minas. Muito pasto, cheiro do fim do gado. neblina leve ao longe.
Moeda, Conselheiro Lafaiete, São João Del Rey... ê trem bão.
Ilhéus.
Chego as 7:30. 36km depois.
Lembro do pai. por onde será que andou. onde eu estou na genética desta cidade.
Gostei de tudo que vi. Cidade de rioimar. Gosto muito disso.
O centro velho fica na quina, como algumas bananas. Rodo, rodo, tiro dinheiro, rodo, rodo.
A cidade teimava em não acordar, peguei rumo às 8:30.
Uma hora de Ilhéus foram suficientes pra saber que eu moraria fácil.
Destino Olivença.
Estrada tranquila, lembra muito Alagoas.
Fui na intuição, o guia de praias que me guia dizia que no Jeiri e em Backdoor tem camping, porém o guia é de 95(hehe).
Mas estava certo que ia encontrar o pico certo.
Num rabo de olho vejo, por entre uma rua estreita de barro que liga a estrada ao mar, vi um banco debaixo de uma amendoeira, mãos e pernas me conduziram pra uma parada por ali.
10 e pouca da manhã e mais 30 km pecorridos, num total 66.
o banco ficava de costas pra uma pousada, simples e meio sucatiada, do jeito que espero.
Lourdes varria a varanda. uma idéia trocada. um pouso certo.
15 conto a diaria. sem café mas com direito à água de côco.
Tirei o dia pra ficar na água, chuveu um tanto.
Almocei manga, maça e laranja.
Fim de tarde fui dar uma banda no centro de Olivença. Moraria fácil.
Sono me pega cedo, 7 horas to de capote.
Sonho à fole. de cachoeira em chão de pedra.
Acordei com o sol.
Arrumar as coisas e rumar.
Roberto(dono da pousada), diz conhecer maceió, diz que o filho já fez uma grande caminhada, diz que tá lá a doze anos, mas que é de Ilhéus, diz um bucado de coisa, me dá uns conselhos sobre os trechos do Una e de Belmonte, e diz... até eu dizer "falou véio, até".
Jetrho Tull no mp3, vou motorizado por Ian Anderson.
De Olivença pro Una são 45km, mas meu desejo era saber se conseguiria fazer a travessia do rio por baixo, pois a estrada dá uma distanciada do mar de 20km.
Não rolou, a entrada para Pedras do Una(trecho separado pelo rio Una de Comandatuba)fui pelo trecho maior.
Chegando no centro, busquei uma sombra.
Poucas árvores, fui prum posto de gasolina. Tati gentilmente me fez companhia.
Frentista pra felicidade de motorista. Frutas, bolachas e água.
Tati foi trabalhar. Chega seu Domingos.
Eletricista, que presta serviço pro dono do posto.
"de onde vem companheiro?" "é longe!"
"morei aqui minha vida toda, a não ser por cinco anos"
"são paulo"
"ehhh! lá consegui fazer dinheiro... cinco anos de trabalho duro, mas cheguei aqui com mais de milhão"
"hoje só tenho essa maleta com minhas ferramentas."
Seu Domingos me deu muita atenção, e contou muita coisa. Fui um ouvido feliz.
Uma hora de descanço e parto.
Ele me diz que ainda tenho uns doze quilômetros de ladeiras até Comandatuba e mais uns 30 até Canavieiras.
Já com as pazes feitas com as ladeiras, vou sereno.
Minha sorte é que as maiores eram pra descer.
pedalpedalpedalpedal...
uma fonte de água mineral, de grátis, só alegria.
pedalpedalpedalpedalpedal...
uma ladeira cruel. no topo vejo uma casa. na frente um homem e uma mulher a desfiar palha.
Sombra me convida.
"oba" "oba" "Canavieiras ainda tá distante?" "unsss...24km."
puta merda a 2 horas que me dizem faltar e vinte e poucos km.
Água, vento, respiro dou um tempo.
O homem diz:
"o vento sul tá danado num tá"
- ôH! a mais de dez dias que só pego contra.
"porque o senhor num faz como a folha"
- como assim, ficar encolhido.
"não , não"
Nessa hora, ele se levanta pra me explicar a ciência que não tive.
"volte de onde véio e espere até setembro, outubro pra descer, que ai o senhor pega o vento norte."
"o negoço é ir pro norte quando o vento é sul e ir pro sul quando o vento é norte"
peueieieieieimmmm.
40 mim de prosa elevada. Galêgo saiu do interior de Pernambuco a 30 anos, ninguém de sua familia tem seu norte.
"o que eu quero é que ninguém me atente."
Estou em Canavieiras desde ontem, parto amanhã de barco até Belmonte e sigo de camelo até Trancoso.
Canavieiras cidadezinha de fuder, rioimar também.
pousadinha 15 conto. também na cara do mar.
Moro fácil fácil fácil.
hoje me veio:
olhar o movimento é olhar o mover do tempo.

2 comentários:

Laurindo disse...

Alvisseras... chegaste no pouso certo. Tudo ali é passado, a não ser a Universidade. Tudo ali lembra Amado, nada ali lembra eu. De meu mesmo só a geografia da memória... um bangalô e seu quintal, na avenida Itabuna...uma fonte de água salgada onde à meia-noite uma linda sereia vinha pousar para pentear os cabelos. Lembro também dos filhos da minha madrinha (Madame Nanã, que nome!)dando-me um banho de carvão, sim de carvão mesmo - me jogaram dentro de um tonel repleto de carvão vegetal. (Será que eu deveria ter nascido negro?) Passamos por lá, tua mãe e eu, em tempos idos. Mas tu não teve tempo, não olhour direito. Se olhasse, se olhasse detidamente ia me ver nú passeando nos braços de uma preta retinta, cabeça feita, filha dileta de Yemanjá e devota de São Jorge dos Ilhéus (Ah, a catedral levou mais de 50 anos prá ser terminada, dizem que o santo não tinha aprovado o projeto e derrubava a igreja). Era dia de Carnaval. O resto, meu filho, é vassoura de bruxa. E o cacau do oriente. Tudo o mais é só lembrança que Amado eternizou.

Beijos e abraços por te saber feliz e potente.

Teu pai.

PS: Vê se não demora tanto prá postar. A gente fica ansioso por mais e quer saber do próximo capítulo.

Diogo disse...

Conectividade cognitiva!!! Diga lá!! É foda neh não!! Tu sonha dai e se materializa aqui!! Ainda bem que o pior não aconteceu!! Pensei muito naquilo que escreveste no imeio. Tenho q canalizar esta intensa energia só pro bem! Valeu irmão, é nois. Fica na santa paz.
Bju grande. Diogo