sábado, 12 de abril de 2008

Mais um pouco do Sul da Bahia e de melancolia

Bom, muito bom o sul da Bahia.
De Ilhéus à Barra de Caravelas, onde hoje estou.
BA001. Rota do Descobrimento. Pico véio. Cantos dos nativos e desbravadores.
Me impressiona, como um dos lugares mais antigos em contato com os desbravasugadores, pode permanecer em tão bom estado. Os condomínios avançam, o gado também e os tais Eucalipitais vem com força. Não sei quanto tempo vai demorar.
Em Caraíva o turismo hiper valorizou as coisas, ao ponto de os moradores antigos ter que comer um nó dobrado pra poder comer de verdade. A pesca ainda se mantêm forte, tive a chance de passar na época das tainhas, que são pescadas de tarrafa(rede de mão) e os pescadores ficam na beira do mar olhando as ondas com olhos de caça e rede na agulha, quando avistam o cardume é correria e tchau, de uma tarrafada bem feita pegam de 8 a 15 tainhas, bunito de se ver.
Mas o arroz, o feijão e os produtos industrializados, já necessários, vêm com tarifa pra gringo.
Porém os gringos são a base econômica da maioria desses lugares, tudo é para pouso, tudo está à venda.
Tive sorte de ter encontrado Juva(o garoto que me deu abrigo em Caraíva), pois com ele tive a chance de ver mais de perto aqueles que moram ali a muitas gerações. Os cinco reais que me cobrou não pagaram a hospitalidade e a atenção que me deram, simples, sem energia elétrica, me deram saudade das noites que faltava luz e a familia se aproximava.
O filho do meio João Pão, foi o que mais me acompanhou, falei que era desenhista e tal e ele se mostrou fã de desenho animado, sabe tudo, mas com o olhar simples do distanciamento.
Todos me fizeram sentir a sensação do português, com meus mp3, barraca(um dos pequenos me disse:"você vai dormir ai? é muito bonito!"), mochilas. Outros já passaram por ali, mas a estranheza deve ser a mesma. Quando disse pra Juva sobre o previlégio que é morar ali, ele olha pra mim com desdêm e diz "tô ligado", como "vocês sempre dizem isso, mas o dia a dia é duro". Eles têm um terreno de mais ou menos 10 mil metros quadrados, na frente do mar, com água de poço, plantam várias coisas, côco, mangaba, mandioca... mas a sensação de falta tá no rosto. Eles querendo ser agente, e agente querendo ser eles. Ainda me pertuba.
Mas vamos nessa, descendo enquanto a subida não chega.
Passei por vários cemitérios, de pessoas, de árvores, de coisas que agente faz...
"A liberdade serve a morte" é uma frase que tem me acompanhado.
Quando escutei a primeira vez guardei, e só vim entendê-la pelo caminho.
Nunca gostei de usar a palavra liberdade, não lembro de dizer "quero ser livre", sempre fui simpático à rotina e as certezas, uns chamam de inércia, preguiça, mas pra mim é permanência, sempre fui tendido a permanecer, o problema vem quando pra permanecer você tem que mudar. Sempre fui do discurso mecânico "faça amor não faça a guerra". Hoje eu perdôo os que fazem guerra. com causa, sem causa, mas todos por uma necessidade física de serem o que nasceram pra ser. guerreiros. e também perdoando os estão sentados, criando limo como diz o do pantanal, mas limo é vida, ou seja o nada, a não ação sempre vai ser uma ação. Você pode guerria-lá. Incoerências. Sempre fui das coerências, conscientemente. Luz, conhecimento, quanto disso é necessário para se saciar, existe satisfação?
Em tempos de guerra a fé é a arma mais potente. Neguinho se mata por ela. "Acreditar no produto" foi a maxima que me disse o mundo capitalista. Ele está errado por isso. Seja ele pra conseguir ter voz apropriada. "Porquanto como conhecer as coisas senão sendo-as." Jorge de Lima. Tenho visto que paz é uma situação tão importante como a guerra, tudo que existe é importante para sua própria existência. Como se julga uma existência? O quanto de existência deve existir. Quais existências devem existir. As mono, as poli...
Ainda não sei, ao certo, onde estou nessa guerra, ou nessa paz. Mas venho aprendendo a perdoar as existências, ou seja tenho vivido mais em paz do que em guerra, porém sei que haverá o momento em que colocarão em jogo minha existência, e isso quer dizer tudo que acredito, minha família, meus amigos, a garça torta, nesse momento é que vem o chamado, e agente se mexe, porém tudo naturalmente. Quem é forte e intenso, pisa com o pé na porta, quem é sedutor negocia, quem é frágil e ardiloso..... Agindo de acordo com nossa "propriedade", sem culpa, ou com ela se assim for. hehe
Cumuruxatiba foi a praia mais bonita que vi no caminho, só perdendo pra "Garça", heheh.
Falando sério "Cumuru" é daqueles lugares com traços perfeitos e composição ideal. O homem tenta estragar as vezes, mas esse é daqueles picos que agente vai ter muito trabalho pra detonar.
Lá reencontrei com Duca, um ex morador da Garça, me apresentou um Mirante que me deu a noção divina do lugar. Fiquei num camping chamado Aldeia da Lua, recomendo, com direito a represa de rio com cascata e um área gigante por 10 conto. Limpeza.
Fiquei 2 dias. Estou com pressa.
Lembrei que deixei a panela no fogo, mas ainda dá pra ver mais uns dez dias de lugares.
O dinheiro é pouco e a competência pra fazer amigos também.
Vou rumando, lembrando da família.
Ontem chegei a Caravelas, jornada diferente, minha bike quebrou o rolamento à 20 km da chegada. Fui andando com o dedão olhando para caminhonetes e caminhões. Mas eles nem aí pra meu suor. "Ah tão pertinho, ele deve tá brincando!". Minha tristeza era não poder gritar, "mas é que eu já pedalei 75 km"...
Eu queria ter ido até Barra de Caravelas, mas cheguei em caravelas já eram 6 da noite, tive que ficar, até lá ainda tinha mais 15 km. Pouso barato e com cama. Pousada Beco de Shangrilá. Foi Aqui. 15 conto com café da manhã foi tentador, chuveiro quente e coisa e tal. Cara de pensão do centro. Só vi uma mulher, até agora, a circular pela pousada e era uma vizinha.
A cidade não gostei. Ou talvez seja meu olhar que já esteja cansado.
Amanhã vou para Vitória de busão. Pular o norte dos Eucalipitais da Aracruz do Espirito Santo.
Depois vou pedalar até Guarapari, depois Neves e depois Campos, em seguida ver possibilidade de ônibus até Rio das Ostras e pedalar até Saquarema e por fim o Rio, que já decidi ser a bandeira quadriculada, Sampa de busão. Serra do Mar, sul do Rio e norte de São Paulo só quando Diogo comprar um barco e por a familia, heheh. Por falar nisso, me lembrei que a travessia do rio Corumbal fiz num barco chamado Diógo, e com acento mesmo.
até o próximo computa dor.
"Meu tempo é" amanhã, seja pra vida, seja morte.

5 comentários:

Laurindo disse...

Êta nóis! Quanta reflexão! Faz favor de não ficar velho antes do tempo, visse? Faz favor de não perder a graça e o encanto da tua mocidade, tão necessária... ó menino lúcido e audaz, prontamente Buda assentado no topo de todas as dúvidas do universo. Nada de melancolia, cabrón! Isto é doença do passado. Isto é mal dos séculos. Isto produz uma cirrose do cabrunco!
Avante, dizem os mochileiros das galáxias, anos-luz nos esperam após aquela curva na beirada de Andromeda.

Diogo disse...

Fala véi!! muito boa leitura...sempre no aguardo de uma nova postagem...bom saber de tudo um pouco q se passa...fica na paz...ou na guerra...abraços!
Diogo

Duas disse...

seja bem-vindo, hóspede ilustre :)

fique o tempo que precisar.

elisa

Silvio disse...

Maurisoca

Gostei da tua narrativa.
Pode comecar a preparar uma
historia em quadrinhos da tua
viagem!!
Tem muita historia pra contar em quadrinhos e quadroes!
Bem vindo ao sul do leste.!!

Uncle Silvio

Babá disse...

E aê Mauríco!

Aqui quem escreve é Yuri, Irmaõ do Pedro. Beleza véi?
Meu pai me avisou que você tá nessa aventura sob duas rodas pelas estradas do brasil.. que massa!

Olha, quando chegar em Campos avisa! De preferencia com antecedência. Tem lugar pra você descansar, comer e lavar uma roupa.. hehe

Meu tel. é: 22-27347304, se ninguém atender deixa recado. E-mail: yuri.baba@gmail.com

Só não estarei aqui durante a semana do próximo feriado (do dia 18 ao dia 24). Mas fora isso serás bem vindo.

Valeu! Boa Viajem!